Uma perspectiva pra “voltar à ativa”

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Bem, e aqui estamos novamente, quase um ano depois da última postagem do blog. Tá na hora de falar de perspectiva de novo.

Já é tradição pessoal minha abandonar ocasionalmente este blog e voltar muito tempo depois, com um post que começa reclamando que eu fiquei muito tempo sem postar nada, depois argumentando como dessa vez tudo vai ser diferente e eu vou postar regularmente coisas interessantes aqui e etc e tal. O que acontece é que muitas vezes alguma coisa acontece no meio do caminho e estraga tudo, e essa perspectiva muda. E, desde o último post, muitas coisas dessas aconteceram.

A história, sem muitos detalhes

Como eu já comentei aqui algumas vezes, eu não gosto de oferecer muitos detalhes nas postagens que eu faço aqui, porque certas coisas são pessoais e eu não gosto de ficar expondo essas coisas assim aqui, de um jeito que fique à vista de todo mundo.

Isto posto, vamos começar pelo princípio: eu voltei da Alemanha sem muita perspectiva do que fazer da vida. Infelizmente minha estadia lá não gerou lá resultados muito animadores (em grande parte porque eu não encontrei condições adequadas pra desenvolver a pesquisa que eu queria). Equipamento pifado que (quem diria) não recebia conserto porque a empresa ficava adiando a visita técnica (8 meses de atraso!), falhas de comunicação de expectativas e outros problemas que eu nem vou me dar ao trabalho de mencionar. As perspectivas que eu achei que teria não se concretizaram. Mas, basicamente, viver na Alemanha foi um crescimento pessoal muito importante, mas me esgotou profissionalmente, de um jeito que eu perdi o gosto pela pesquisa. Minhas idéias nunca foram muito aceitas, e eu fui forçado a tentar aprender a pensar de um jeito totalmente diferente, num intervalo de tempo impraticável. Mas enfim, estou saindo pela tangente.

Quando cheguei ao Brasil, a melhor perspectiva que eu tinha era virar motorista de Uber. Era o segundo semestre de 2018 e todo mundo sabe como aquele ano terminou. Mas, ei, “pelo menos tiraram o petê”.

Pra deixar claro, eu não votei no boçal fascista que atualmente ocupa o Palácio do Planalto.

Duas perspectivas mutuamente exclusivas

Enfim, enquanto eu tentava tirar algum dirigindo Uber, duas oportunidades meio que caíram no meu colo. Elas não vieram do nada: uma era meio que uma promessa já meio antiga, que finalmente tinha recebido financiamento e o projeto finalmente ia ganhar a luz verde. A outra apareceu graças a um amigo que me indicou, e eu estava no lugar certo na hora certa.

Uma delas envolvia alguma continuidade na minha área de estudo, mas ao mesmo tempo oferecia remuneração menor e viagens constantes, com perspectiva de renovação incerta. A outra significava uma mudança radical de área, mas tinha perspectivas melhores no médio e longo prazo e remuneração melhor. Escolher uma significava queimar as pontes que levavam à outra, então a escolha era realmente difícil (não no padrão Estadão de dificuldade em escolhas).

Depois de bastante reflexão, eu escolhi a segunda. Muita coisa pesou nessa decisão, mas no fim das contas eu achei que seria saudável pra mim uma mudança de foco. O trabalho envolveria bastante coisa relacionada à área de TI, programação e gerenciamento de dados, coisas que eu curto bastante.

“Por fora”, eu sabia que o trabalho envolveria coisas mais práticas do dia-a-dia do laboratório também, e eu não me importei com isso, afinal eu sei que isso faz parte do trabalho em um grupo de pesquisa, ainda mais na situação em que a USP se encontra (com uma falta quase obscena de mão-de-obra).

Faça escolhas, e viva com as conseqüências

No fim das contas, por mais que eu tentasse, as expectativas não eram nada razoáveis, nem comparando com o que eu esperava, nem com o que me foi pedido. No fim das contas, e pensando em retrospecto agora, eu sei que não importa o quanto eu fizesse, nunca seria suficiente.

Quando você escreve um relatório com tudo que você vez, daí o cara vem e fala “você não pode colocar essas coisas porque não faz parte do projeto”, e um mês depois ele fala “olhando o seu relatório você não fez nada”, fica aquela sensação de que tá faltando alguma parte da história que eu perdi.

Enfim, chega de reclamação. Quem souber somar 2 e 2 vai perceber que eu já falei mais do que eu normalmente costumo fazer, e talvez tenha sido até demais. Basta dizer, pra completar, que essa fase se acabou. Faltam ainda uns detalhes burocráticos, mas isso é mero detalhe e eu não estou preocupado. A esta altura, a palavra que me vem à mente é outra.

Problemas são oportunidades disfarçadas

Segundo o Reuben, em Ocean’s 12, o John Adams disse que “todo problema é uma oportunidade disfarçada”. Eu meio que concordo com essa frase, embora eu ache que ela não se aplique de forma universal. Mesmo assim, é uma perspectiva interessante.

De qualquer forma, o ponto em questão é que graças a esse trabalho eu me foquei em aprender certas coisas que de outra forma eu não sei se teria tido tempo ou dedicação pra aprender. Eu aprendi Python (e muita coisa relacionada a isso), gerenciamento de dados, revisei meu conhecimento de banco de dados, construção de APIs… além de finalmente ter aprendido a usar o R, um treco que eu queria aprender desde o mestrado.

Mas eu acho que o principal foi que, pra me capacitar na área do trabalho, eu me meti a fazer uma segunda graduação. Além de ser relacionada ao trabalho, essa graduação também foi um jeito de lidar um pouco com uma pequena crise de “quase-meia-idade”. Agora uma das justificativas não existe mais, e por ter trancado o curso neste semestre eu atrasei um pouco a coisa toda, mas acho que ainda vale a pena. Não sei se vou continuar no mesmo curso ou se vou tentar ir pra outro, no entanto. Agora que não tenho mais a restrição de “isso precisa ter a ver com o trabalho”, posso aproveitar e me enveredar por alguma outra área, que talvez me facilite uma mudança de carreira.

Perspectivas pela frente

A verdade é que o futuro se encontra em aberto. Felizmente, as condições em casa são suficientes pra eu poder parar um momento e pensar nisso, e também pra poder me dedicar a repensar a minha vida e decidir qual o rumo a tomar em seguida.

O que é muito bom, diga-se de passagem. Eu sonhei em ser Físico por tanto tempo, desde que era adolescente, que nunca pensei em realmente seguir seriamente outra coisa. E a verdade é que, se eu pudesse, ainda seguiria com isso. Eu não sou um empreendedor, eu não sou inovador. Nunca tive muita vocação pra isso, e a verdade é que não fui treinado pra isso. Tem uma história do Feynman de quando ele visitou o Brasil que ilustra bem isso.

Enfim, acho que é isso. Meu caminho no momento está indefinido, e eu preciso decidir pra onde quero ir. Infelizmente é uma época péssima pra isso, porque dei o azar de nascer no país errado (todo brasileiro com um mínimo de decência que vive no Brasil atualmente deu esse azar).

Mas isso, também, um dia vai passar. Até lá, seguimos o conselho da Dory e continuamos a nadar.

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