Ciência, Tecnologia e Comunicações

No final das contas, o tal ex-pastor da Universal não ficará com o MCT (MCTC, agora). Esse ministério vai para Gilberto Kassab, ex-prefeito de São Paulo e ex-ministro de Dilma (achei… “interessante” mencionar isso aqui).

A primeira coisa que fui procurar foi o currículo Lattes dele, que não existe. Mau sinal.

Eu esperaria, do responsável pela Ciência e pela Tecnologia do país, alguém que tivesse, pelo menos, criado o próprio currículo Lattes. Isso indicaria algum nível de intimidade com os campos da pesquisa científica e tecnológica, e uma óbvia conexão com iniciativas de inovação.

Apesar disso, ele é formado em Engenharia Civil e Economia, ambos cursos pela Universidade de São Paulo. Já é um começo, e indica que pelo menos ele passou pelo mundo acadêmico.

Também é interessante que ele tem experiência na área: foi presidente da Comissão de Ciência e Tecnologia.

Kassab foi prefeito de São Paulo, e adotou algumas medidas que foram interessantes, como a Lei Cidade Limpa, por exemplo, que diminuiu a quantidade de propaganda nas áreas abertas da cidade (embora isso não tenha sido acompanhado por uma melhora no visual dos prédios da cidade em geral, o que teria sido ideal). Na mesma linha, regulamentou a lei do enterramento da rede elétrica, o que certamente ajudaria o visual da cidade e melhoraria a qualidade e a disponibilidade da energia fornecida.

Na gestão dele a prefeitura de São Paulo também foi o primeiro órgão público a realizar um leilão de créditos de carbono e criou uma usina de energia que utiliza o gás emanando de um aterro sanitário na Zona Leste.

São ações interessantes e importantes, mesmo que nem todas tenham tido o efeito desejado (o enterramento da rede elétrica atualmente está parado, por exemplo). Para alguém que ficou seis anos à frente da prefeitura, eu esperaria mais iniciativas. Ou, pelo menos, melhores resultados.

A gestão dele na prefeitura também teve sua dose de polêmica, como a chamada “Operação Sufoco”, que em hipótese deveria melhorar a “cracolândia”, mas em vez disso acabou apenas espalhando os usuários pela cidade. Ou a famigerada taxa de inspeção veicular, juntamente à contratação irregular da empresa responsável por essa inspeção.

Junto com José Serra, acabou com o orçamento participativo, que era uma boa iniciativa do governo municipal anterior (olá, política partidária…). Também houveram problemas com relação à merenda escolar.

Finalmente, Kassab deixou a prefeitura paulistana com pequeno superávit orçamentário, o que considero ideal, ou seja, utilizou o orçamento, sem deixar sobras, o que hipoteticamente significa que os recursos que foram destinados às diversas áreas da prefeitura foram efetivamente utilizados – muito embora o fato de terem sido bem utilizados é questão para outra discussão.

Do lado político, vamos lembrar, há menos de dois meses Kassab era ministro de Dilma. Agora, será ministro de Temer. Só isso, acredito, já diz muito.

No geral, poderíamos estar pior. Um líder religioso, a princípio, não tem muito lugar no MCTC; por outro lado, uma indicação mais técnica teria sido melhor. Do ponto de vista do equilíbrio entre as duas coisas (que atualmente são, infelizmente, inconciliáveis no Brasil), estamos mal, mas podíamos estar pior.

A fusão da Ciência e Tecnologia com as Comunicações não faz nenhum sentido, a não ser a pura e simples necessidade de diminuir o número de ministério a qualquer custo. No final das contas, esse pode ser o grande empecilho às funções do ministro, que terá que dividir suas atenções entre áreas muito diferentes – pra não mencionar os problemas de orçamento.

Desejo boa sorte ao novo ministro – assim como todos os outros, ele vai precisar.