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Eu confesso: sou preconceituoso. Minha opinião de muita gente se viu transformada no momento em que eu descobria em quem votavam.

Depois de oito anos da mais pura baixaria eleitoreira, dos escândalos efusivamente negados, das piadas sujas jogadas na cara do povo brasileiro, os responsáveis foram hoje reconduzidos a mais um termo de quatro anos.

Não que a alternativa fosse espetacularmente melhor; o PSDB é o partido mais burro do Universo, e para mim está claro que não tem condições de governar até que aprenda a assumir o papel de oposição, até que deixe de ser covarde e tenha a coragem de assumir suas posições publicamente, sem medo da popularidade dos outros.

O resultado de hoje é mais um que confirma algo que sempre acreditei ser o caso do Brasil. Não somos um país com vocação para ser líder de coisa nenhuma, muito embora sejamos. Não somos um país com vocação para servir de exemplo para ninguém, muito embora sejamos. Não somos um país de todos, senão meramente uma nação de oportunistas e de cegos.

Claro, generalizo. Há muita gente com discernimento. Entretanto, cabem aqui algumas observações.

Cabe, por exemplo, mencionar que o que ganhou a eleição foi a noção de que os benefícios imediatos são mais importantes que os benefícios a longo prazo. Ficou claro, também, que coletivamente o povo brasileiro não apenas não tem memória (fato notoriamente conhecido) como também escolhe ser cego. E ficou claro principalmente que, “na média”, o brasileiro não se importa com mais que o próprio umbigo.

Digo isso porque, para mim, essa é a mais pura verdade; o grosso dos votos da candidata do governo veio de gente beneficiada pelos programas sociais do governo. Não quero entrar no mérito da sua existência; estou meramente explicitando o fato de que a gente beneficiada por esses programas votou na candidata daquele que conseguiu assumir o posto de responsável pela “bonança” por que vem passando. Esses programas, bem ou mal, aumentaram a mobilidade social de muita gente, e, claro, essas pessoas não querem voltar ao nível onde estavam. Aí entram seus umbigos: não percebem que o mesmo programa que lhes sustenta nesse nível é fundamentado no trabalho daqueles que dão duro, já que o dinheiro que alimenta esses programas vem dos impostos que eles não pagam. E o que é pior, esses programas não lhes incentivam a procurar aproveitar a chance e melhorar a própria vida. E essa é a parte triste, porque continuarão patinando no mesmo lugar, agora rotulados como classe média: jogando PS3 numa TV de LCD, mas igualmente ignorantes. Mas piores ainda são os supostos intelectuais que fizeram a mesma opção: esses porque fizeram essa opção conscientemente. Entre esses, artistas, atletas e mesmo professores das melhores universidades do país.

Que uma coisa fique bem clara: não sou contra a mobilidade das classes mais baixas, nem contra seu acesso a itens de alta tecnologia. Nem sou contra as conquistas alcançadas pelo Brasil nos últimos 8 anos. Eu sou contra a apropriação desses fatos como sendo de responsabilidade exclusiva de um único governo, como se as condições iniciais não fossem importantes na determinação do estado de um sistema, por mais complexo que ele seja. De fato, quanto mais complexo mais influentes são as condições iniciais. Sou contra o fato de que se gerou uma crença generalizada no país de que as coisas boas foram conquistas do governo atual; e de que as coisas ruins foram herdadas do anterior, ou simplesmente inventadas pela “turma do contra”. E me revolta, a ponto de me deixar sem apetite, o fato de que muita gente engoliu esse papo.

E me enoja, acima de tudo, o fato de que essa gente ter ganho a eleição com o apoio de gente que notoriamente vem chafurdando na lama e no esgoto há pelo menos vinte anos. Lama e esgoto esses que ajudaram a transformar a política brasileira na piada que é hoje.

Outro fator a favor da “hipótese do umbigo” foi a natureza da campanha eleitoral que (teoricamente) se acaba hoje (e que começou lá atrás, na campanha de 2002). Ambos os lados se recusaram a discutir propostas para o futuro do país; ambos estavam mais interessados em atacar com truculência e ignorância o adversário, agindo é claro como nada mais que sintomas daquilo que se passa na sociedade brasileira. Eleitores de um dos candidatos não estavam interessados em programa de governo, senão em jogar lama no adversário. Estavam (estávamos!) tão distraídos se divertindo com isso que não viram a oportunidade de transformar o Brasil de país do futuro em país do presente passar batida. Pior ainda, a candidata que representa a nascente terceira via, o caminho para quem não quer mais nem A nem B, depois que teve resultado surpreendente e positivo no primeiro turno, deixou que isso lhe subisse à cabeça, e resolveu se fechar em seu próprio pequeno mundo de cristal, rezando para que milagrosamente a razão fosse restaurada à campanha. Assim, mostrou seu despreparo e ingenuidade, e independente do resultado da eleição de hoje, torna-se minha a maior decepção com o contexto político brasileiro.

Por mais que as pessoas digam que votam contra certas coisas, independente do que sejam ou se são realmente tão importantes assim, na prática quando há somente duas opções (e não se enganem, num segundo turno há somente duas opções), se você vota contra uma está automaticamente votando a favor de outra. E, quando votamos em alguém, estamos votando não em uma pessoa, mas em um candidato. E um candidato é a soma daquela pessoa, de seu programa de governo, de seu partido e seu projeto de poder, e em todos que a apóiam.

Enquanto as pessoas não tiverem consciência do que seu voto representa, os candidatos e a política continuarão os mesmos. E, enquanto isso, o Brasil seguirá sendo o eterno país do futuro que nunca chega.

Por último, mas não menos importante, de uma forma mais íntima e pessoal o saldo dessas eleições para mim é negativo. Depois de alguma auto-análise percebo que, depois de tudo, sou agora um pouco mais cínico com relação a meu próprio país, e nada poderia ser pior.

Nos resta agora fazermos cada um a sua parte; quem sabe o milagre não vem?

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