Por quê eu encerrei meu Facebook

Esta semana encerrei minha conta no Facebook.

Não foi uma decisão fácil. Eu vinha pensando nisso há alguns meses, depois de perceber que o site tinha se tornado uma criatura muito diferente do que era quando isso tudo começou, há mais de dez anos atrás.

Lá por volta de 2005, redes sociais eram novidade. Não havia ainda “aplicação prática” daquilo; era mais uma coleção de pessoas que se agrupavam de acordo com os seus interesses, e assim podiam manter contato entre si. Como as comunidades do Orkut, por exemplo, que tinham de tudo, desde discussões mais sérias a páginas inteiras dedicadas a uma piada que acabava no próprio título. Interfaces eram rudimentares e canhestras, ainda entendíamos o conceito de “guestbook”, e, principalmente, ainda não tínhamos nos tornados inimigos de nós mesmos.

O conceito de compartilhamento como é hoje simplesmente não existia. Ninguém jamais teria imaginado em usar o orkut, facebook, myspace ou qualquer outro site do tipo como fonte de notícias.

Facebook, fake news e a aversão ao debate

Hoje em dia, o Facebook constitui a fonte de informação da maioria das pessoas. Esse fato por si só não é tão importante como o que vem em seguida: é muito fácil compartilhar qualquer coisa no Facebook. No entanto, o site não tem nenhuma maneira de verificar se o que está sendo compartilhado é de fato algo real, uma sátira, ou simplesmente notícia falsa. Some-se a isso o fato de que a maioria das pessoas não entende a Internet, e pronto: a fórmula perfeita para forçar quaisquer “fatos alternativos” que se desejar. As pessoas vêm algo no Facebook e não se dão ao trabalho de verificar se aquilo é ou não é verdade, e seguem compartilhando. Dessa forma uma notícia falsa se propaga e ganha “status”, chegando até mesmo a ser publicada em grandes jornais onde alguém não verifica os fatos corretamente.

Pior ainda: como o controle sobre quem tem conta no Facebook é, digamos, relapso, é fácil criar várias contas e usá-las para propagar essas notícias falsas. Cria-se um blog com o tema desejado, publica-se uma série de notícias contendo o que se bem entende, e depois essas notícias são compartilhadas por centenas ou milhares de perfis falsos. O número de compartilhamentos dá legitimidade ao compartilhamento, e daí por diante o processo ganha vida própria e segue sozinho. Pessoas desavisadas vêem aquela notícia e, concordando com ela, compartilham. Não importa se ela é verdadeira ou não: o viés de confirmação inibe o senso crítico de avaliar se aquilo que se está compartilhando é ou não verdade.

Some-se a isso o fato de que, pela própria natureza do Facebook, ele tende a agrupar pessoas que pensam de forma parecida. Então, a menos que a pessoa faça um esforço consciente para receber outros pontos de vista, ela vai receber notícias que são direcionadas aos seus interesses, sem ser exposta à divergência de opinião. A falta de diversidade nas opiniões é um problema sério, pois ela inibe o livre debate. Sem a devida troca de idéias, a tendência das opiniões é se tornarem cada vez mais radicais, levando à polarização e ao confronto.

Privacidade

Desde o começo eu nunca fiquei muito contente com a “política de privacidade” operada pelo Facebook. Mas, no começo, fazia sentido manter uma conta lá. Dessa forma seria possível manter um certo controle sobre que tipo de informações a meu respeito poderiam ser compartilhadas. Sempre houve uma seção na área de preferências dedicada a controlar o compartilhamento de informações.

Isso se tornou muito mais complicado de uns dois anos pra cá. Com a revelação de que os dados de quase 90 milhões de usuários foram usados na campanha do Donald Drumpf ficou claro que o Facebook não tem capacidade de oferecer aos usuários o controle necessário para que isso funcione.

Por quê isso é importante? Porque usando os dados de toda essa gente é possível direcionar certos posts a quem tem mais chance de compartilhá-los. Utilizando as ferramentas oferecidas pelo próprio Facebook, é possível direcionar posts ao público-alvo que vai gerar a melhor resposta. E isso é determinado de acordo com regras que são estabelecidas por quem paga pela divulgação. Usando os dados obtidos dos perfis que foram “colhidos” por uma empresa como a Cambridge Analytica, o efeito “validador” dos compartilhamentos numerosos é potencializado, e fica mais difícil detectar quem são os perfis falsos – já que as pessoas que recebem esses posts acabam inadvertidamente fazendo o serviço sujo sem nem sequer perceber o que está acontecendo.

E é assim que um troll se torna o homem com o maior botão do mundo.

Saindo do “Face”

Sair do Facebook, no meu caso, é uma questão pessoal. Felizmente não tenho nenhum vínculo profissional lá, nem preciso fazer a divulgação de nada.

Mais que isso, no entanto, é que eu me cansei de ver a polarização que tomou conta de todo mundo. O Brasil está seguindo a mesma onda dos Estados Unidos. É óbvio que a campanha eleitoral de 2018 vai ser jogada, em grande parte, no Facebook. Com manipulações, notícias falsas e memes. Ah, sim, os memes. Eles têm um potencial destrutivo ainda maior que as fake news, justamente por não serem levados a sério. Esteja certo de que os marketeiros vão dar duro para criar o meme certo para você.

E assim aprendemos a odiar uns aos outros e desaprendemos como ter empatia. Passamos a desvalorizar qualquer opinião que não seja a nossa. Aprendemos a confiar no duvidoso, a não checar fontes, a achar que temos o direito de impor opiniões aos outros. E quem discorda merece ser tratado como lixo, como inimigo, como uma ameaça.

Por isso, eu saí do Facebook. E sugiro que você, que está lendo isso, faça a si mesmo esse favor e saia, também. Não sou eu dizendo isso.

Links