Segundo mês

Poucos dias atrás completei dois meses na Alemanha. Passado o impacto do primeiro mês, da parte mais crítica da adaptação e dos primeiros tropeços, a coisa agora começa a se estabilizar.

Finalmente me entendi com o sistema de blihetes de trem. É bastante inteligente, na verdade, já que o valor pago corresponde (mais ou menos) à distância viajada. Segundo uma conversa que tive com um conhecido em Frankfurt, há algum tempo atrás o passageiro comprava um bilhete válido por “n” estações, mas o sistema atual é mais prático e os custos não mudaram muito.

Uma coisa curiosa é que (pelo menos na região de Essen), as pessoas reclamam bastante dos trens, principalmente porque eles às vezes atrasam por até meia hora (ou mais).

Esse pessoal devia vistar São Paulo (e andar de trem). O que eles não percebem é que a malha ferroviária deles é imensa, e mesmo que um trem atrase, sempre há outras opções. Mais que isso, sempre há mensagens nas estações e trens quando há atraso. Ontem, por exemplo, meu trem atrasou por mais de meia hora. A cada cinco minutos o condutor avisava do atraso, pedia desculpas e avisava de trens de outras linhas que estavam indo na mesma direção e que poderiam servir como alternativa.

Quem já andou de trem em São Paulo certamente vai entender por quê isso é tão importante. Perdi as contas do número de vezes que o trem parou no meio do trajeto, sem aviso, debaixo do sol, e ficou ali parado, sem nenhum aviso para os passageiros – que, aliás, se espremem de um jeito quase obsceno. O movimento da hora do rush aqui não chega nem perto do caos da Praça da Sé.

essen-map.gifmapa_metro_sao_paulo.jpg

À esquerda, a malha ferroviária de Essen. À direita, a de São Paulo. Não é uma comparação muito boa, afinal as duas figuras não estão em escala, e fica difícil comparar o tamanho real, número de estações e coisas assim. Então, pra fazer uma comparação numérica, olha a diferença entre o metrô em Essen e em São Paulo:

São Paulo Essen
População 12.000.000 580.000
Área 1520 km² 210 km²
Tamanho da malha 80 km 75,5 km

A grande diferença, é claro, é a população das duas cidades. São Paulo tem quase 20 vezes mais habitantes que Essen, e assim mesmo as duas malhas são comparáveis em tamanho. Acho que isso dá uma noção bem melhor do nível de atraso de São Paulo. Mesmo considerando as linhas de trem, que eu deixei de fora de propósito, a comparação não fica muito melhor, porque na melhor das hipóteses a malha de São Paulo chega a ser 5 vezes maior que a de Essen, mas ainda assim a proporção é assustadora.

Enfim… mudando de assunto. Afinal de contas, este não é um post sobre transporte público.

É incrível como a imersão ajuda a aprender uma língua estrangeira. Claro, aprender alemão não é como aprender espanhol – dois meses depois de chegar a Buenos Aires eu já falava tranquilamente o espanhol, mas as semelhanças entre ele e o português ajudou muito.

Já dá pra distinguir pelo menos uma parte do que as pessoas falam, mas ainda estou MUITO longe de ter qualquer fluência, muito menos de conseguir falar e me fazer entender. Pelo menos, já dá pra “me comunicar”. E isso considerando que eu tenho sido meio vagabundo, e não tenho estudado quase nada a não ser nas aulas de alemão. Mesmo assim, esta é provavelmente a fase mais difícil de aprender uma língua: dá pra entender algumas palavras no meio dos sons ininteligíveis que as pessoas emitem, e quase dá pra entender do que eles estão falando; mas só de maneira muito superficial, e por isso fica tudo muito nebuloso. Algumas palavras a gente já sabe o que significam, e outras a gente reconhece mas não lembra direito. Daí fica aquela bagunça: “ele tá falando do trem? Ou tá pedindo alguma coisa?”

O pior de tudo são os falsos cognatos, que são vários com o inglês, e isso atrapalha tudo. Sem falar de pronomes, preposições, artigos, tudo ainda meio misturado e ininteligível.

Mas eu sei que isso vai vir com o tempo. Do mesmo jeito que foi com outras línguas.

Passado o deslumbre inicial, a gente também começa a ver certas coisas que incomodam. Afinal, não dá pra generalizar. Aqui também tem gente mal educada, ignorante, mal intencionada…

Gente que fica te encarando no metrô como se você fosse um bicho de outro planeta, e olha pro coleguinha e faz piada, achando que você não tá entendendo.

Ou gente que empaca no meio do caminho no metrô e atrapalha quem tá andando.

Ou gente que quer te vender gato por lebre (sim, aqui também tem). Por exemplo, o sujeito que queria me empurrar um gorro de “lã” – que era feito de um monte de coisa, menos lã.

Eu queria ter algo mais interessante pra contar, mas por enquanto, ficamos por aqui.

Bis später.

Primeiro mês

Apenas uma nota rápida, pra lembrar que já faz mais de um mês que estou aqui.

Originalmente minha intenção era fazer um post por semana, mas isso naturalmente acabou se provando impraticável. Entre tudo que eu tenho pra fazer aqui, é difícil sentar na frente do computador com ânimo, paciência e idéias pra arranjar assunto.

Não que não haja assunto. Afinal de contas, a adaptação não é nada fácil.

O clima aqui é bem frio, mas não tão frio quanto eu esperava – pelo menos, não ainda. Já teve alguns dias em que a temperatura chegou a 0°C ou um pouco menos, mas isso não significa tanto assim porque afinal de contas o “zero” nesse caso é só um valor arbitrário que tem mais significado psicológico do que outra coisa. Mesmo assim, é frio pra cacete! Mas não é tão difícil assim se acostumar. Na verdade é até interessante usar tanta roupa assim e não ficar passando calor no meio do dia.

Por que é isso que acontece em São Paulo, por exemplo, no inverno. A gente sai de casa e tá aquele puta frio (tá, pros padrões de São Paulo, mas enfim…). Daí a gente veste duas calças, duas blusas, cachecol, gorro, luva… tudo isso pra um dia que tá fazendo 15 °C. Bom, de qualquer forma, chega o meio do dia e a temperatura chega a 25, 30 graus… e a gente acaba passando calor. Algumas peças ainda dá pra tirar, mas por exemplo se você sai de casa com duas calças não dá pra parar no meio da rua e tirar uma…Sem falar que cada peça de roupa que a gente tira é uma peça a mais pra carregar.

Enfim. Aqui a coisa é meio diferente, porque aqui faz frio de verdade. A gente realmente precisa de duas calças. E não, a gente não vai precisar tirar uma delas durante o dia porque aqui não é questão de 15 a 30 graus, mas sim de 5 a 10 graus, então pode usar duas calças que não vai ficar suado por baixo de toda aquela roupa e chegar em casa fedendo a suor num dia frio. E depois de algum tempo a gente acostuma também. Esses dias por exemplo a temperatura deu uma subida, chegou a 15 °C. Um calor!

Outra coisa interessante daqui é o transporte público. Tem trem e metrô pra tudo que é lado! E tem ônibus também. A passagem vale pra qualquer meio de transporte, não tem essa putaria de “integração” “Bilhete único X BOM”, tarifa extra… vc compra o bilhete e pronto. Sem falar que aqui tem várias categorias de bilhete: quem vai andar dentro da cidade paga bem menos que quem vai pra uma cidade que fica mais longe. Mas esse é assunto pra outro post, que pretendo fazer logo. O sistema aqui é interessante, e levou um tempo até eu entender como ele realmente funciona. Assim que eu conseguir sacar os detalhes escrevo o bendito post e coloco aqui. Esse eu faço questão de fazer porque é importante, a maior parte das pessoas que vem pra cá apanha do transporte público porque não sabe como funciona. Não tem nem catraca, imagine só.

Quanto às pessoas, cada vez que eu viajo pra outro país eu percebo que podem haver diferenças culturais, mas no fundo as pessoas são todas iguais mesmo. Tem todo tipo de gente: legal, antipática, fria, calorosa… algumas coisas são mais culturais, como por exemplo o comportamento das pessoas na rua, ou o fato de sempre deixarem a esquerda livre nas escadas rolantes. Mas mesmo assim conforme o tempo passa a gente começa a ver aspectos menos agradáveis, que talvez eu cubra em outro post mais pra frente, conforme certas situações forem avançando… Por enquanto vamos dizer que gente sem noção vai ser sem noção em qualquer país, e conviver com gente assim é foda.

Pensando bem, até que tem bastante assunto pra escrever aqui… espero poder encontrar tempo pra poder colocar tudo em palavras e ir postando aqui. Felizmente o trabalho vai bem e ocupa bastante o tempo, então não posso prometer nada, pelo menos por enquanto.

Auf wiedersehen!

Brigando com o WordPress

Agora que estou na Alemanha há mais de um mês, estou tentando dar vida nova a este blog.

Entre as mudanças que estou fazendo, estou (finalmente) organizando as categorias de posts. Isso vai levar um tempo razoável, já que nunca dei muita atenção pra isso, e – pior ainda – fui mudando de idéia com o tempo a respeito do que queria fazer com isso. Ainda mais depois que mudei para o WordPress, e de repente me vi às voltas com categorias e tags. Isso já tem uns dois ou três anos, e só agora acho que finalmente cheguei mais ou menos a um critério sobre o que deve ser uma categoria e o que deve ser um tag… O resultado dá pra ver lá no alto, com as categorias sendo mostradas no menu de navegação do site (que, aliás, é outra coisa para a qual eu finalmente achei uma função).

O que realmente me deu um certo trabalho – e uma imensa dor de cabeça – foi achar um tema razoável. O WordPress começou como uma plataforma para publicação de blogs, mas o próprio conceito de blog mudou muito de lá pra cá. E o WordPress cresceu muito também. Hoje em dia ele é uma ferramenta usada pra manter sites de uma infinidade de tipos diferentes, e de fato ele inaugurou uma nova classe de ferramenta, os tais CMS (Content Management Software). O problema com isso é que achar um tema que implementasse um blog simples, com algumas categorias e uns widgets bacaninhas, foi difícil. Devo ter testado uns vinte temas, todos eles alegando que são customizáveis, simples, elegantes, consistentes, e todos aqueles adjetivos bacanas do jargão de hoje em dia.

O grande problema foi o mau comportamento do próprio WordPress, no fim das contas. Conforme fui mudando de um tema para o outro, enquanto não achava um que fosse adequado, fui tentando customizar, colocando widgets na barra lateral (essa aí da direita, que tem twitter, last.fm, goodreads e outras bobagens). O comportamento da barra foi ficando cada vez mais estranho, até que finalmente ela começou a mostrar os widgets sem eu pedir. Depois de várias buscas infrutíferas no Google e nos fóruns do próprio wordpress, descobri que quando eu removo um tema ele não elimina a barra lateral; em vez disso ele a “desativa”. O problema é que quanto outro tema assume o lugar, ele encontra essas barras e acha que tem que usar. E aí surgem um monte de widgets repetidos, e o site fica esquisito (e irritante pra cacete).

Depois de uma meia hora eliminando todos os widgets expúrios que o WordPress criou, a coisa normalizou. E, quem diria, achei um tema que achei legal: o Gillian, que é o que está ativo agora. Com mais uns plugins espertinhos, customizei cores, fontes e aparências em geral, e estou com o blog agora numa situação próxima do que realmente quero. Ainda tem uns detalhes pra acertar, mas não estou mais com paciência pra mexer nisso hoje, então fica pra outro dia (e se eu me conheço, isso vai ser daqui uns 3 anos).

O próximo passo agora é repassar todas as postagens antigas e acertar tudo nas categorias. Os tags vou deixar mais ou menos como estão, e vou usar como se fossem palavras-chave dos posts. Como se fossem categorias, mas mais flexíveis e idiossincráticos (por falta de adjetivo melhor). E, também, pensar numa imagem melhor pro cabeçalho. A imagem padrão do tema é legal, mas não tem muito a ver comigo. Talvez eu tente bolar alguma coisa… veremos.

Vida de pós-graduando

Suicídio de doutorando levanta questões sobre saúde mental na pós (Folha de S. Paulo)

Em qualquer lugar do mundo, uma pessoa que decide se aventurar na vida acadêmica após a graduação está adquirindo um bilhete para uma viagem que, muitas vezes, pode ser bastante desagradável e traumática.

Ao contrário do que possa parecer, em especial àquelas pessoas que dele não fazem parte, o meio acadêmico não é nada fácil. A mudança do status de “estudante” para “cientista” é intensa, abrupta e implacável. O aluno de pós-graduação em geral é exposto a um aspecto do mundo que ele muitas vezes nem sabia que existia durante a graduação; de repente ninguém mais está disposto a esperar por ele, e logo fica claro que ele será o único responsável pelo que faz – e pelo que deixa de fazer. Para alguém que está acostumado a seguir os prazos e cronogramas que são criados (ou impostos) por outras pessoas, não é nada trivial aprender a planejar suas atividades – muitas vezes com semanas ou meses de antecedência.

Em uma situação normal, a figura do orientador serviria para ensinar e incentivar esse tipo de atitude – mas muitas vezes não é isso que acontece. Em vez disso, cada encontro de trabalho torna-se uma sessão de tortura, na qual prazos cada vez mais curtos e cobranças cada vez mais exigentes são desfiladas diante do orientando, que por sua vez sente-se cada vez menos preparado para enfrentar os desafios que o trabalho oferece, que não são poucos.

Disso nasce a chamada “Síndrome do Impostor“: a pessoa começa a pensar, erroneamente, que não é capaz de cumprir o que prometeu fazer, de fazer jus à confiança depositada nela, de corresponder às expectativas do orientador… a pior pressão que a pessoa sofre é aquela exercida por si mesma. A pessoa olha para si mesma e não enxerga o que espera, que é o padrão de um cientista conforme a imagem deturpada exibida por jornais, revistas e pelo entretenimento em geral de uma pessoa inteligente, racional, crítica, inovadora.

Ninguém é inteligente, racional, crítico e inovador 24 horas por dia.

Como já disse Edison, a genialidade é 1% inspiração e 99% transpiração. Ou seja, 99% do tempo não estamos fazendo nada senão o trabalho árduo e contínuo de todos os dias – o trabalho da formiga operária. Aqueles poucos momentos em que surge uma grande idéia, aquela que “destrava” todo o trabalho, que desencadeia todo o desenvolvimento, no entanto, são a única coisa que transparece ao expectador externo. Todo o trabalho, o sono perdido, os caminhos sem saída, as idéias que deram errado, tudo isso é ignorado, e a imagem que fica é somente aquela idéia genial, da pessoa que está sempre dizendo algo significativo e profundo o tempo todo.

É com esse fantasma que quem se aventura na pós-graduação convive: a idéia de que você só vale alguma coisa como ser humano se demonstrar, todo o tempo, que é capaz de ser inteligente, racional, crítico e inovador – o tempo todo. E, quando falha, a pessoa corre o sério risco de desenvolver uma série de problemas psicológicos que nascem do confronto entre a imagem do que se deve ser e do que se é realmente. Esse é o cerne da Síndrome do Impostor: “estou aqui porque mostrei que sou genial, se eu não for genial eu sou um impostor e um mentiroso, não sou digno”. Independentemente de suas realizações, a pessoa compromete sua auto-estima à avaliação sobre si mesma que percebe nos outros.

No mundo acadêmico isso é partiularmente cruel, pois o conceito geral é de que o cientista só tem valor se publica muitos artigos em revistas de alto impacto, que recebem milhares de submissões e recusam a maior parte. Um exemplo: a Nature Materials, edição da famosa revista Nature dedicada à ciência de materiais, recebeu aproximadamente 250 submissões por mês em 2012. Menos de 10% desses foram eventualmente aceitos para publicação. Mesmo assim, essa altíssima taxa de turnover é ignorada e a rejeição de um trabalho torna-se uma experiência muitas vezes traumatizante e nociva à auto-estima do pesquisador, que se vê diminuído, e que muitas vezes vê seu trabalho sendo julgado não pela qualidade da pesquisa que foi feita, mas por outros critérios – inclusive critérios políticos.

E no Brasil?

Isso tudo vale para o mundo inteiro. Em cada país o sistema de pós-graduação funciona de maneira ligeiramente diferente, mas a pressão por resultados é, invariavelmente, enorme.

Naturalmente, no Brasil, a situação é bem pior.

As condições da ciência no Brasil nunca foram muito favoráveis. Talvez tenha havido exceções pontuais a essa regra, mas no geral não há dinheiro para pesquisa:

  • Bolsas de mestrado e doutorado, quando existem, são baixas, especialmente quando se leva em conta o custo de vida nas cidades onde há Universidades – quase sempre públicas – com programas de pós-graduação
  • O pós-graduando não se encaixa em nenhuma categoria profissional, o que significa que os anos de trabalho em mestrado e doutorado não contam para a contagem de tempo da aposentadoria, por exemplo
  • Não há segurança: muitas vezes o pagamento da bolsa atrasa, ou simplesmente não acontece. Muitas vezes a pessoa está no exterior e fica totalmente vulnerável, à mercê da burocracia
  • Os recursos para equipamento de laboratório são igualmente escassos. Há poucos equipamentos de cada tipo disponíveis, e naturalmente as filas de espera são grandes.
  • Os recursos para a manutenção do equipamento de laboratório são igualmente incertos: quando um equipamento apresenta defeito e não há maneira de se executar uma “engenharia de emergência”, o equipamento fica sem uso e quem precisa dele, com as mãos atadas.

Isso sem contar o nível de burocracia envolvido em cada passo do caminho. Via de regra o caminho para se conseguir recursos é longo e tortuoso. E, como são limitados, geralmente a concorrência é brutal, o que leva a uma pressão ainda maior não apenas por quantidade de resultados, mas também por relevância.

Ainda há a crise econômica. A primeira vítima dos cortes é sempre a pesquisa, por menor que seja seu orçamento. Cada vez há menos perspectivas para quem está na pós-graduação. O noticiário político e econômico, que já deixa qualquer um depressivo, é ainda pior para o pós-graduando, pois é indicativo de que o futuro é ainda pior.

No Brasil ainda não temos uma cultura que valorize o suficiente o trabalho acadêmico. Isso leva muitas famílias a questionar a sabedoria das decisões de alguém que escolhe seguir por esse caminho, em vez de “conseguir um emprego”. “Mas o seu primo já está trabalhando em tal companhia, e faz tal e tal coisa, e já ganha um bom salário, e você aí ainda estudando. Quando você vai parar de estudar pra casar e ter filhos? Você deveria fazer alguma coisa prática, isso daí não serve pra nada”.

Além de responder às questões que pretende responder com seu trabalho, a mente de um pós-graduando é atormentada por outras perguntas que, idealmente, não deveriam ter tanto peso. Como produzir resultados relevantes e em abundância, preocupado em não corresponder às expectativas do orientador? Em ser capaz de cumprir com suas responsabilidades? Em conseguir usar o equipamento de que precisa? Em conseguir os materiais necessários para a pesquisa? Em fazer a família compreender o que significa seu trabalho? Em pagar as contas do mês e ainda se alimentar?

Eu poderia continuar este post, se quisesse compartilhar experiências pessoais. Todo mundo que passou pela pós-graduação vai estar cheio de histórias assim. Mas não são coisas que eu queira repassar – pelo menos, não aqui, nem hoje.

A vida de pós-graduando já seria difícil o suficiente se houvesse “apenas” a pressão do trabalho. Com tudo isso, para muitas pessoas ela se torna insuportável – e a alternativa que algumas pessoas recorrem, como foi o caso do rapaz do ICB-USP, às vezes pode parecer um fim menos cruel.

Wilkommen in Deutschland

Enfim, começou uma nova jornada. Desde meados de outubro estou oficialmente residindo na Alemanha.

Não que eu tenha deixado a vida no Brasil pra trás: a família ficou. Bem que eu queria, mas não deu pra trazer junto. Mesmo porque, querendo ou não, eventualmente devo voltar ao Brasil depois destes 12 meses por aqui.

Apesasr disso, e também dos problemas que vou ter que enfrentar, financeiros, emocionais, psicológicos, profissionais e etc, vou aproveitar o máximo que puder, e vou procurar manter aqui um “diário” sobre a vida na Alemanha. Tipo o que eu fiz quando fui pra Argentina, só que com uma frequência um pouco maior…

Já andei pensando em alguns temas pra fazer uns posts aqui, voltados principalmente pra quem pensa em vir ou já está se preparando pra vir. Afinal, o país é diferente, é uma cultura diferente, e as coisas funcionam de um jeito que muitas vezes pode parecer obscuro ou simplesmente estranho pra um brasileiro.

Eventualmente, quando meu alemão chegar a um nível tolerável, vou tentar fazer uns posts em alemão aqui.

Bis später!

De volta

Depois de (mais) um longo hiato, eis que surge novamente, das cinzas, este blog.

Por uma série de motivos que não vêm ao caso e sobre os quais eu não quero falar, o site acabou ficando fora do ar por boa parte do ano. Haja vista que o último post é do início do ano…

Enfim. Finalmente há boas novidades no ar. Este blog vai servir mais uma vez a um propósito que ele cumpriu lá em 2010, mas quem sabe desta vez eu tenha um pouco mais de paciência pra sentar e escrever nele um pouco mais frequentemente… Gostaria de fazer bem mais que um post por mês.

Enfim, eis-me aqui de volta. O outro site também está voltando, tentativamente, se eu tiver pique pra mantê-lo funcionando. E, como é típico, fui lá e criei MAIS UM. Agora serão três, com assuntos específicos. Este, um blog pessoal pra eu falar o que quiser, o Foca na Ciência, que fala de – d’uh – ciência e tenta divulgar coisas interessantes, e agora tem o A Culpa é do Hunter, um blog sobre World of Warcraft.

Veremos quanto tempo isso dura.

Feliz Ano Novo

2016 foi um ano de merda. Tá aí, falei.

Isto posto, anos pares têm sido, historicamente, ruins para mim (há exceções, claro). 2016 foi um dos piores.

Não vou ficar aqui falando de tudo que me aconteceu no ano que acabou antes de ontem, mesmo porque certas coisas eu não gosto de ficar postando em lugar nenhum.

Mesmo assim, gostaria de registrar meus sentimentos com relação a 2016 aqui, nem que seja para ler daqui a dez anos e pensar “no que diabo eu estava pensando?”, que é o que eu faço atualmente com as postagens mais antigas deste blog (sem considerar as que são ainda mais antigas mas que por um motivo ou outro eu acabei perdendo).

Para começar, duas batidas de carro. Uma dentro de um estacionamento cujo proprietário não foi exatamente honesto, mas que poderia ter sido pior. Ainda assim, fiquei insatisfeito com a resolução porque no fim das contas eu paguei pelo erro dos outros. Enfim. A outra batida foi de uma pessoa que não olhou para os lados quando deveria e sumiu devidamente sem deixar muitas pistas… em parte por causa da minha idiotice, já que eu deveria ter pedido o documento dela, anotado todas as informações e feito um registro fotográfico melhor… fica o aprendizado (e a eventual ação no tribunal de pequenas causas).

Fora isso, fui incluído no contingente de pessoas que perdeu o emprego “por conta da crise”. Uma crise que se originou da administração estúpida e irresponsável, típica da classe política brasileira, que por sua vez representa o povo brasileiro, que não sabe (nem quer) participar da vida política do país. O resultado são as raposas tomando conta do galinheiro… e quem paga a conta dos ovos são as galinhas, que em sua maioria só se interessam por futebol, carnaval e cerveja. E ai de quem “falar mal”: “como assim você não gosta de futebol? Você não é brasileiro não?”

Apontar erros é, na verdade, justamente o oposto que “torcer contra”. Sem alguém para indicar o que está errado, como podemos melhorar? Mas, em vez disso, a maioria das pessoas encara isso de uma maneira estupidamente reversa, como se deixar de assumir os problemas fosse fazê-los ir embora.

De qualquer forma, este post não é sobre a estupidez das pessoas. Então, seguindo…

Perdi um amigo em 2016. Alguém que eu considerava como um membro da família, que tinha livre acesso à minha casa e à minha vida particular, mas que mostrou que não era digno dessa confiança toda. Não quero dar mais detalhes, mas eu atingi a minha cota: certas pessoas não valem a pena o esforço, e quero me concentrar em quem vale.

Meu balanço de 2016 é que perdi muita coisa, mas essas perdas contribuíram para o meu crescimento. Aprendi muito, e percebi que passei tempo demais tentando fazer a coisa errada – ainda que pelos motivos certos. Por mais difícil que seja, é necessário seguir o caminho que defini para mim mesmo há tanto tempo atrás, e embora seja necessário admitir que a rota percorrida não seja a traçada, também é necessário lembrar que os desvios só valem a pena se levam ao mesmo destino.

Como sempre, persistência, paciência e disciplinas são as palavras de ordem.

Que venha 2017.

Olá câmera! =)

Por um bom tempo eu achei que a minha câmera havia morrido em outubro com as tempestades e quedas de energia que aconteceram.

Parece que, felizmente, eu estava enganado. Por desencargo de consciência liguei a câmera no computador de novo e qual não foi minha surpresa ao perceber que ela está funcionando novamente!

Francamente não tenho certeza do que pode ter acontecido. Pode ter sido algum mau-contato entre a controladora USB e a placa-mãe (que eu uso pra ter USB3 adicionais), ou a câmera tem componentes borg e por isso se recuperou sozinha.

Não importa, o bom é que voltei a ter a possibilidade de fazer meus streams. O que não significa que eu vá fazer isso, perdi a inércia e teria que recuperar bastante coisa pra voltar a fazer isso. Sem falar em conseguir de novo ter um horário pra sentar na frente do computador sem interferências externas… enfim. Vou tentar pensar em algum arranjo pra voltar a fazer vídeos em 2017. Veremos!

Tchau Câmera =(

A tempestade da quinta-feira passada deixou vítimas. Felizmente nada essencial à vida da casa: geladeira, máquina de lavar etc estão todas funcionando bem, obrigado.

Quem morreu (fazendo escândalo, aliás) foi a minha câmera. Meus vídeos no twitch perderam um pouco da graça porque eu não posso mais aparecer… o que é uma parte importante quando se faz transmissões desse tipo. Vou ter que pensar em um jeito de consertar isso.

Eu sabia que algo tinha ido pro saco. Em uma das 345665 vezes que a luz caiu e voltou, fatalmente alguém ia acabar se lascando com o transiente lascado… obrigado Eletropaulo. Foi um ruído bem alto, e deu pra ver uma luz parecida com um flash na sala. Na hora não deu pra ver o que era, mas quando fui inciar o stream na sexta-feira eu percebi que não havia sinal da câmera…

Uma coisa que dá pra fazer é restaurar a câmera antiga. É melhor ter uma imagem com resolução porca do que nenhuma imagem…

How Star Wars Conquered the Universe

Por uma série de motivos (que não vêm ao caso) ainda não terminei de ler esse livro, que comecei há várias semanas.

Também não sei se é uma obra “autorizada” ou não – embora eu desconfie que, mesmo não sendo, tenha contado com a colaboração de muita gente intimamente ligada à franquia e ao George Lucas, o que dá uma certa credibilidade ao texto.

Na verdade só estou escrevendo este post porque me passaram duas coisas pela cabeça que achei que seria relevante colocar aqui (mesmo porque se não fizer isso posso acabar esquecendo).

A primeira delas é uma sensação de que descobri o problema da trilogia prequel de Star Wars: George Lucas é um péssimo escritor. E, pior ainda, é tão obcecado com as histórias que cria na própria cabeça que nunca, jamais, alguém seria capaz de colocar no papel essas histórias de uma maneira que ele achasse satisfatória.

Uma evidência clara disso são as inúmeras mutilações revisões à história que ele fez ao longo dos anos.

Isso me veio à cabeça porque, quando estava escrevendo American Graffiti, George Lucas teria mencionado que só se daria por satisfeito se o roteiro refletisse 60% da sua visão. Em seguida, Taylor mencionsa que a mesma coisa teria acontecido a Episódio I – A Ameaça Fantasma, e que a porcentagem teria sido de 90%.

Cara, esses 10% fizeram MUITA falta.

Não é hoje que vou escrever minha opinião sobre os prequels. Mas, de um ponto de vista geral, a história faz sentido. A evolução de Anakin de garoto inocente e bem-intencionado a jedi poderoso e (ainda) bem intencionado a vilão é mais ou menos clara. Os problemas começam quando essa história – que faz algum sentido mas não deixa de ser medíocre – precisa ser levada adiante por um roteiro que parece que foi escrito por um adolescente, e que se desvia tanto que quando os momentos críticos aparecem é necessário forçar a barra para que tudo aconteça. Em outras palavras, os personagens são levados a agir de maneira incongruente com a maneira como foram construídos, mudando de direção sem a menor cerimônia. Um exemplo claro disso é a maneira como Anakin simplesmente se rende e imediatamente chama de “mestre” o homem que estava prestes a matar. Em um intervalo de alguns minutos ele passa de “jedi bonzinho” para “sith malvado que mata criancinhas” em uma transição que não é perceptível nem no texto nem no subtexto.

Outra coisa que eu quero deixar registrada aqui é que a pesquisa do Chris Taylor obviamente foi muito profunda: ele revela certos detalhes que são, ao mesmo tempo, totalmente irrelevantes e extremamente interessantes. É muito legal entender, por exemplo, de onde veio o nome da raça do Chewbacca ou o nome R2-D2.

Estou lendo aos poucos o livro, mas estou me divertindo a cada página.